
O primeiro que fiz foi chorar. Uma consciência da pena talvez, e vivia.
A vida, saboreio-a como um faminto que abre a boca a um pedaço de pão seco, que pica na lingua. E cheiro bolos, distante...
Quem me pôs aqui não era, por certo, familiarizado com Von Liszt, ou rejeitava as suas teorias, pois eu não sei o que devo aprender aqui para remediar o que não sei que fiz ou pensei, ou não fiz nem pensei. Uma força que não vem de mim abre-me a boca e mastiga o pão seco, mas eu cheiro bolos, e finjo um sorriso ao que tenho nas mãos, que me apetece cuspir e pisar até não ser mais que pó neste chão.
Aqui as nossas vestes nunca são brancas, mas manchadas de vermelhos de outros e um pouco do nosso. Batas de manicónio que mostramos com orgulho a quem nos olha. Mostramos as manchas que crescem, e ficamos pálidos de escorrendo sangue que não é nosso e faz padrões no branco que rimos ao mostrar aos demais lividos.
Algum do que me saltou nos lábios quando cortei soube-me a bolos. Ânsia de sentir um pouco mais que secura e engoli-o, sofregamente. Toquei uma emoção e senti-me cruel da minha consciência, o que bebi era também meu, mais uma mancha. Esse cheiro insiste em não desaparecer e faz-me olhar para cima e perguntar o porquê de ser quando não sou. Ainda tenho migalhas na mão.
As mangas encurtam e o resto rasga. Não vemos as linhas a cair como folhas no Outono até sermos despidos. Nus, com o corpo coberto de cicatrizes de feridas que não deixamos sangrar com medo de sujar o linho. Enrugados pedintes, estendemos os braços e pedimos um pouco mais daquele pão seco que agora nos queima o orgulho. "Mais, um pouco mais" - gritamos, suplicando por mais cortes na pele.
Eu não quero mais. A minha pena é ser, para que me dilacerem e suguem e que sujem as vossas roupas na vossa procura. Eu encontrei, não sei o quê mas está lá, mais alto. Se não mo dão rebelo-me, não aceito mais migalhas de secura. Deixo-me cair, mas a força recusa-se a sair do meu corpo. Já não quero saber como é o sentimento. Cansei de o inventar da vontade que tinha. Só quero ir. Se vos faz mais enganados de felicidade firam-me e bebam do meu sangue, sabe a bolos, (eu sei, já bebi), que nunca vou agarrar.

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